segunda-feira, 15 de novembro de 2010

OS HOMENS INFAMES NA NOVA HISTÓRIA CULTURAL: OLHARES

OS HOMENS INFAMES NA NOVA HISTÓRIA CULTURAL: OLHARES

José do Egito Negreiros Pereira
egito78@hotmail.com




“Quando as pessoas seguem Foucault, quando têm paixão por ele, é porque têm algo a ver e a fazer com ele, em seu próprio trabalho, na sua existência autônoma. Não é apenas uma questão de compreensão, mas de intensidade, de ressonância, de acorde musical”.

Gilles Deleuze




Resumo

O objetivo deste trabalho é demonstrar como a partir da década de 1970 a pesquisa historiográfica passou por profundas mudanças sob a égide dos “olhares” feitos, não por obra de um historiador de carreira, mas por um filósofo: Michel Foucault. Não se trata de apresentar, aqui, uma análise sobre as principais obras do filósofo francês, mas, de mostrar como a pesquisa de Foucault sobre as pessoas comuns (homens infames ou os esquecidos da história) influenciou uma série de pesquisas que tinham por objetivo caminhar nos seus passos (Michelle Perrot), ou para, a partir de um mesmo olhar (um moleiro friuliano, “Mennochio”, versus um “Pierre Rivière”) criticar os discursos de Foucault, a exemplo de Carlo Ginzburg. É claro que outros historiadores preferiram tratar as classes populares de acordo com seus respectivos desejos, deixando de lado os discursos, e dando ênfase a cultura, como no caso de E. P. Thompson; outros preferiram tratar a cultura, para além do erudito/popular, demonstrando as autonomias quando das práticas de leituras (Chartier); e outros, preferiram ser envolvidos pelo “manto” da antropologia cultural, dando-se prioridade às narrativas interpretativas (Darnton). Mas todos, à sua maneira, seguiram como Michel Foucault, fazendo história a partir de um mesmo objeto: a história vista de baixo, a história das classes populares, das pessoas comuns, dos homens infames.

Palavras-Chave: Michel Foucault, Pessoas Comuns, Nova História Cultural.


INTRODUÇÃO

Este texto, talvez, possa ser encarado, com vistas ao título, com um pouco de pretensão, posto que, pretende-se colocar numa mesma narrativa, historiadores conceituados no campo da história cultural pós-anos 1970 (a exemplo de Ginzburg, Thompson, Chartier, Natalie Zemon Davis, entre outros) sob a maestria do “olhar” de Michel Foucault, no tocante ao objeto principal da história: o homem. Talvez seja mesmo uma audácia. Logo Foucault! Aquele “cavaleiro bárbaro”, sem método, sem pretensão de objetividade, de verdade, tão duramente criticado por Ginzburg. Logo Foucault! Aquele intruso, que adentrou no campo da história, não para enaltecer as pesquisas dos historiadores da 2ª geração dos Annales, mas para minar o campo da disciplina que o excluía. Por mais que o trabalho de Foucault tenha sido alvo de muitas críticas, não dá para deixar de lado a profundeza de sua originalidade no campo da disciplina que teimava em renegá-lo: os homens infames, os “loucos”, os prisioneiros... São a prova do pioneirismo de Foucault no terreno da história. Este texto tem o objetivo de alçar “vôo”, a partir das “migalhas de Foucault”, sobre as principais pesquisas no âmbito da Nova História Cultural dos últimos anos; estas pesquisas nem sempre se utilizaram dos “insights” foucaultianos (poder, saber, disciplina...), mas por outro lado, fizeram uso de seu foco de abordagem em história: o prisioneiro, o sujeito processado, o trabalhador da fábrica, etc. Enfim, deste olhar sobre o homem comum (de origem subalterna) diante do poder (do estado, da fábrica, da inquisição, ou de um inimigo qualquer) os historiadores sócio-culturais não escaparam. Foram todos acertados pela flecha de Michel Foucault.


1. Michel Foucault versus Carlo Ginzburg: embates na Nova História Cultural

O livro que levou Foucault à fama e ao reconhecimento intelectual foi a “histoire de la folie à i âge classique” . A obra que passou inicialmente quase despercebida entre os historiadores, não pretendia fazer a história dos loucos ao lado, em presença ou em convívio com as pessoas tidas por “normais”; nem a história da razão em oposição à loucura. Tratava-se de levantar a história dessa divisão incessante, porém sempre modificada; tratava-se, enfim, de mostrar como a loucura fora percebida em diversos momentos históricos, da Renascença ao século XIX. O que Foucault nos mostrou foi que a loucura não é uma categoria, um objeto natural; ele nos mostrou que para cada tempo, a loucura teve um significado, e que, foi somente a partir do século XIX, que a medicina passou a ter o poder sobre o campo de saber da loucura, afixando nela, o rótulo de “doença mental”, indicação que tem o poder da interdição.
Foucault passou a fragmentar o campo da história, a fazer uma história geral. Na visão de Paul Veyne, Foucault revolucionou a história e se firmou como um dos teóricos mais utilizados pelos novos historiadores. O resultado da influência de Foucault (juntamente com as contribuições de Thompson, Natalie Davis, Geertz e Hayden White) dará início a uma nova visão dominante sobre a história cultural: “A Nova História Cultural”, que entrou em uso no final da década de 1989, quando o historiador norte-americano Lynn Hunt publicou um livro com esse nome (A Nova História Cultural), resultado da reunião de vários ensaios . A Nova História Cultural mostrou-se ser uma modalidade de fazer história no plural. Tal modalidade:
Não recusa de modo algum as expressões culturais das elites ou das classes letradas, mas revela especial apreço, tal como a história das mentalidades, pelas manifestações de massas anônimas: as festas, as resistências, as crenças heterodoxas... Em uma palavra, A Nova História Cultural revela uma especial afeição pelo informal, e, sobretudo pelo popular .
Não tomaremos neste texto, a postura de fazer uma reminiscência das obras de Foucault, mas defenderemos quais textos aproximam Foucault dos demais historiadores culturais. E um exemplo explícito desta aproximação se deu em 1973, quando Foucault publicou o “Eu Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”, estudo sobre um matricida francês. Esta obra foi publicada pela coleção francesa archives, série voltada para a publicação de fontes sobre casos, sobretudo judiciária. Para Vainfas a micro-história foi preconizada nesta coleção, da qual fizera parte Foucault.
Se a “História da Loucura” já trouxera algumas polêmicas para o currículo de Michel Foucault, por ele explanar uma “arqueologia do silêncio”, o “Eu Pierre Rivière...”, também não escapou às críticas, em especial às de Carlo Ginzburg, que acusou Foucault de dá prioridade aos discursos judiciário e psiquiátrico, deixando para segundo plano as memórias do assassino, que viveu no século XIX.
Segundo Ginzburg, a possibilidade de interpretação sobre o discurso de Pierre Riviére foi totalmente excluída de forma explícita, porque, segundo Foucault, interpretar aquele texto, equivaleria a alterá-lo, reduzi-lo a uma “razão” estranha a ele . A “irritação” ou sátira do historiador italiano para com Foucault parece visível no prefácio do seu livro, publicado em 1976, posto que, a “arqueologia do silêncio” de Foucault, transformou-se, na opinião de Ginzburg, em silêncio puro e simples, por vezes acompanhado de uma muda contemplação estetizante .
“O Queijo e os Vermes”, livro que fez a fama da modalidade historiográfica da micro-história, se propôs a ser um projeto diferente do realizado por Foucault, em seu “Pierre Rivière...”. Utilizando-se do método indiciário e dos filtros da circularidade cultural, Ginzburg, analisou um processo inquisitorial que tinha como réu, um simples moleiro friuliano, chamado Domenico Scandella, conhecido por Mennocchio. No livro, Ginzburg demonstrou uma excelente habilidade de lidar com as fontes, tentando estabelecer relações de verossimilhança entre a vida camponesa da Itália quinhentista (a pobreza dos camponeses, o papel do moleiro em uma sociedade arcaica, os lugares de sociabilidade, os valores sociais e espirituais...) com questões que o historiador pretendia descobrir. Literalmente, Ginzburg comandou sua pesquisa como um detetive, fazendo perguntas aos processos, numa tentativa de se aproximar à veracidade dos fatos. O livro, que foi distribuído em 62 capítulos, mais parece uma obra de ficção, tal foi a leveza do enredo.
Nesta mesma linha de pesquisa, Natalie Zemon Davis, em “O Retorno de Martin Guerre” , retratou o caso de um impostor, que no século XVI tomou o lugar de uma outra pessoa, e viveu maritalmente com uma esposa que de direito não “lhe pertencia”. O livro mais parece uma trama de ficção, do que uma obra de história. Ao longo de 12 capítulos, Natalie Davis, colocou ao leitor um enredo fascinante, onde se misturam amor, ódio, imposturas, conveniências, comédia e tragédia; onde em clima de suspense, prevalece à história do impostor “Martin Guerre”, sobretudo, mas também a do verdadeiro Martin Guerre.
O livro de Davis não escapou às críticas, dada às montagens, as seleções, os recortes, e a própria estrutura da “intriga” que a historiadora criou. Davis chegou mesmo a afirmar, em resposta as críticas, que o historiador cria o passado, e que a história é uma ficção, tal como a literatura. Mas uma ficção trabalhada a partir daquilo que existe . Diante desta polêmica entre ficção e história, Paul Ricoeur, chegou mesmo a admitir a ficcionalização da história, presente na capacidade imaginária das narrativas de construir uma visão sobre o passado e de se colocar como substituta a ele. A ficção é quase história, assim como a história é quase ficção .
Bem, chegamos a um ponto de nossa explanação, em que se faz necessário, trazer novamente Foucault à cena. Afinal, se o historiador faz uma ficção a partir do acontecido, assim como na literatura, criando um enredo, uma trama ou uma intriga, Foucault, em seu “Eu Pierre Rivière...” não estaria querendo garantir a “originalidade” dos discursos, ao mostrar os enunciados que tentavam silenciar o assassino cruel ou o louco? Será que Ginzburg, ao fazer os seus comentários indiciários sobre o Mennochio, não estaria fazendo uma representação sobre algo já representado? Sendo assim, o verossímil de Ginzburg não deve ser confundido com a veracidade de um fato. Ginzburg ao se aproximar da verdade de um fato, pode também, reinventar o acontecido a partir de sua subjetividade, e assim, estando a fazer uma nova versão para o que aconteceu. Será que Foucault, também, não estava certo ao apontar para a não interpretação das memórias de Pierre Rivière, fazendo a escolha por garantir a supremacia dos discursos? Foucault manteve-se distante às interpretações dos discursos, no caso de Pierre Rivière, posto que: “Só a sua beleza já constitui uma justificativa suficiente para ele hoje” .
O “Eu Pierre Rivière...” de Foucault, foi publicado em 1973. Os ataques de Ginzburg a esta obra e a Foucault ocorreram com o lançamento de “O Queijo e os Vermes” em 1976, num teórico prefácio. Entretanto a resposta de Foucault não tardou, e em 1977, o filósofo francês publicava “A Vida dos Homens Infames” , reenfatizando o modelo de sua pesquisa frente aos discursos. Irônico, Foucault inicia o texto, afirmando que aquele trabalho não se traduzia numa obra de história. Era um trabalho sobre vidas breves, achadas a esmo em livros e documentos. Era um trabalho que buscava sentir a intervenção do estado (entre os anos de 1660-1760) sobre as vidas de pessoas comuns, como por exemplo, Mathurin Milan, internado no hospício por esconder-se da família e emprestar-se à usura; e o frade Jean Antoine Touzard, acusado de ser sedicioso, sodomita e ateu, até mais não poder ser .
A atuação do estado absolutista se fazia, mediante as denúncias dos próprios parentes dos acusados, de pessoas motivadas pela inveja, ira, falsidade, etc. O estado averiguava as denúncias e decidia o destino dos acusados por meio das lettres de cachet – ordem de prisão com selo real. Foucault negou-se outra vez a interpretar os discursos, optando por fazer uma recolha: “A minha incompetência voltou-me ao lirismo frugal da citação” . E arremata: “Este livro não será, pois, do agrado dos historiadores, menos ainda que os outros” .
A quem Foucault estava se referindo quando dessas palavras? A Carlo Ginzburg? Foucault alertou que sua pesquisa se tratava de existências reais, de vidas que se utilizou de palavras breves, e que, na maioria das vezes, se tratava de palavras falsas, enganadoras, injustas, exorbitantes a se utilizar do poder. E eis porque Foucault não interpretou os discursos, aquelas vidas:
De maneira que é sem dúvida para sempre impossível revê-las em si mesmas, tal como seriam “em estado livre”: já não se pode recuperá-las a não ser fixadas nas documentações, nas parcialidades táticas, nas mentiras imperiosas que supõem jogos de poder e as relações com ele .
Foucault inicia um monólogo sobre seu ponto de vista frente aos discursos e suas táticas, posto que se recusa a interpreta-los.
Dir-me-ão: ora aí está o senhor, sempre com a mesma incapacidade de transpor os limites, de passar para o outro lado, escutar e fazer ouvir a linguagem que vem de fora ou de baixo; sempre a mesma escolha, do lado do poder, do que ele diz ou faz dizer; estas vidas, por que não ir escutá-las onde falam por si próprias?
E Foucault, dentro de sua perspectiva sobre o poder, responde: O que seria dessas vidas se não tivessem cruzado o poder e provocado suas forças? Afinal, não será um dos traços fundamentais de nossa sociedade o fato de o destino tomar aqui a forma da relação com o poder, da luta com ou contra ele? . Foucault mostrou-nos com sua teoria do poder, que o poder não é centralizado, que o poder não só age de cima, mas que o poder, vem também, de baixo; que o poder não apenas proíbe, censura, mas que o poder, também induz ao prazer, permeia. O exemplo de tudo isto, vem das lettres de cachet, que significava a resposta a um poder (pedido) vindo de baixo. Foucault negou-se a interpretar os discursos, preferindo vislumbrá-los em suas relações com o poder (táticas, mentiras infâmias), tendo em vista ser melhor deixá-los na forma mesma que mais tinham dado a sentir.
Esta é a grande originalidade de Foucault. A despreocupação de se obter uma verdade, ou um método confiável que leve o historiador às mais remotas da respostas sobre um dado objeto. Foucault preferiu vislumbrar a vida, se fazendo diante de seus olhos por intermédio dos discursos e regimes de verdade. Foucault não tinha um método, uma posição em história, mas várias posições. Talvez seja isso que cause tanta irritação nos historiadores realistas. Talvez seja por isso que Foucault se transformou num “marginal” para alguns historiadores, que o viam como um bárbaro, um “Átila”, a rir do terreno da disciplina história devastado pela poeira dos fatos. Foucault não via o fato como algo natural, dado; mas, como algo construído; nada no homem é suficientemente estável para servir de base para o reconhecimento de si mesmo ou da compreensão dos outros homens. A própria noção de homem é uma invenção recente da cultura européia a partir do século XVI. O estado, o corpo, a sociedade, o sexo, a alma, a economia não são objetos estáveis, são discursos .

2. Outros olhares da Nova História Cultural

Deixando de lado as divergências entre as análises de Ginzburg versus as multifacetas de Foucault, passemos a percorrer as principais pesquisas que se apropriaram diversificadamente das pessoas comuns, das massas populares que fizeram parte dos olhares foucaultianos. Afinal, Foucault teve vários percursos na pesquisa histórica, seguindo diversos caminhos, descaminhos. “Não me pergunte quem sou, e não me diga para permanecer o mesmo”, dizia . Após ressaltar as pesquisas de Ginzburg e Natalie Davis, devemos abordar que vários historiadores se dedicaram ao estudo das classes populares, em especial os operários.
Historiador preocupado com as massas e a identidade da classe trabalhadora no contexto da era industrial, Edward P. Thompson na sua “A formação da classe operária inglesa” , dedicou-se ao estudo das resistências das classes subalternas, procurando valorizar atitudes e comportamentos que, aparentemente insignificantes, eram no fundo, reveladores de uma identidade social em construção. Thompson enfatizou a cultura popular, dando destaque à luta de classe em conexão com as tradições, os ritos e o cotidiano das classes populares num contexto histórico em transformação.
Seu livro inclui descrições vigorosas dos rituais de iniciação dos artesãos, do lugar das feiras na “vida cultural dos pobres”, do simbolismo dos alimentos e da iconografia das agitações sociais, indo de bandeiras e pedaços de pão presos a um pau até o enforcamento de efígies de pessoas odiadas .
Não se trata, neste caso, de fazer comparação entre o trabalho de Thompson com o de Foucault. Até porque, Thompson vem de uma história social inglesa, observando a classe operária sob a ótica do cultural, caso inovador dentro da tradição marxista, porém, Thompson ainda permanece com aquela visão platônica da história, procurando pelas essências que expliquem a vida . E além do mais, A Formação da Classe Operária Inglesa é anterior ao trabalho de Foucault sobre as fábricas, as escolas, os hospitais, enfim, as prisões . O relevante aqui, é que ambos estudaram os trabalhadores, os operários; a diferença é que Thompson enfatizou a cultura da classe operária, enquanto que Foucault, ao seu modo, priorizou a disciplina, o adestramento, o controle do corpo, do tempo e do espaço, além do panoptismo.

Um outro olhar sobre os homens infames (homens de classes subalternas) pode ser visto na obra de Robert Darnton, “O Grande Massacre dos Gatos” .Trata-se de um trabalho que recebeu forte influência da antropologia cultural de Geertz. Segundo os antropólogos, Darnton definiu a tarefa do historiador cultural como capturar a alteridade, e, seguindo Geertz em particular, sugeriu que se pode ler um ritual ou uma cidade, assim como se pode ler um conto folclórico ou um texto filosófico . O trabalho de Darnton é criticado pelo excesso de interpretação que ele utiliza para dá significado ao ritual praticado pelos aprendizes parisienses de 1730, contra um rebanho de gatos que não os deixavam dormirem. Nesse massacre, nem a gata da patroa escapara! Darnton vai mostrar como o massacre dos gatos significou uma sátira dos aprendizes aos patrões.
Deixemos Darnton, e voltemos a apresentar um outro historiador francês: Roger Chartier. “A História Cultural: entre práticas e representações” , uma coletânea de ensaios, é a obra mais conhecida, no campo da teoria, do historiador das práticas de leituras. O ensaio mais conhecido de Chartier intitula-se “textos, impressos, leituras”. Neste ensaio Chartier questiona o caráter todo-poderoso de um texto, e o seu poder de condicionamento sobre o leitor. Se o texto condicionasse totalmente o leitor, isto significaria fazer desaparecer a leitura enquanto prática autônoma . Chartier percebe que em toda história da leitura, existe uma tensão entre, de um lado, os escritores e editores de livros, e do outro, os leitores e suas práticas de leituras (oral, em silêncio). Por um lado, a leitura é prática criadora, atividade produtora de sentidos singulares, de significações de modo nenhum redutíveis às intenções dos autores de textos ou fazedores de livros. “A leitura é uma caça furtiva” no dizer de Michel de Certeau, afirma Chartier. Por outro lado, o leitor é sempre pensado pelo autor e pelos editores como devendo ficar sujeito a um sentido único •. Neste caso, podemos considerar que as práticas de leituras referem-se a uma irredutível liberdade dos leitores e os condicionamentos que pretendem refreá-los.
Chartier Trabalha neste ensaio com as inquietações de um autor, Fernando Rojas, sobre as interpretações diversas que os leitores fizeram da sua obra: A Celestina (1507). Há também uma releitura de “Dom Quixote”, em que um “amo” se irrita com as leituras de seu servo (Sancho) que são típicas das práticas orais. Para Rojas, existe um motivo para a má compreensão de seu livro: a intervenção desastrosa dos impressores, posto que, os autores não escrevem livros, os livros são manufaturados por escribas, que mudam as obras com ilustrações, eliminações de parágrafos, e resumos de obras.
A análise de Chartier sobre os textos, impressos e leituras têm a finalidade de mostrar a tríplice relação que envolve a produção e difusão do conhecimento: uma relação em que participam os autores dos livros, editores e leitores. Chartier conclui em sua pesquisa, que o conhecimento não se difundiu apenas entre a classe letrada; ele percebeu que os textos de uma classe elitizada podiam ser lidos por pessoas de classes subalternas, a partir dos folhetos de cordel. Chartier coloca em dúvida a dicotomia entre cultura erudita versus cultura popular, afinal, os textos passados à categoria de livro de cordel não eram populares por si mesmos, pertencendo antes a todos os gêneros, épocas e leituras, e além do mais, todos os livros antes de passarem à fase de cordel, passaram antes pelas edições, que nada tinham de populares •. Estas palavras mostram que as pessoas comuns (populares) de classes não elitizadas, também interagiam com as leituras das pessoas “nobres”. Deste modo, deve ser posto em dúvida a cultura letrada no tocante a sua área de atuação: minoritária, reservada! .
Depois de transitar-mos pela obra de Chartier, passemos a lançar olhares (breves) pela pesquisa de uma historiadora francesa, Michelle Perrot. O seu livro “Os Excluídos da História” faz um percurso sobre as pessoas que estavam na categoria que chamamos “história de baixo” (operários, mulheres, prisioneiros), posto que a historiadora em tela, procurou seguir as abordagens de Michel Foucault.
Perrot analisa a sociedade industrial, mostrando todo o processo de ordem e racionalização presentes nas fábricas, prisões e escolas. É um estudo que se volta atentamente para as fábricas e prisões, mostrando como os sujeitos eram comandados pelos conjuntos de vigilância que adestravam as pessoas, principalmente, a partir das concepções panópticas. É claro que o estudo não aponta para a sujeição dos indivíduos: há uma relação conflituosa, marcada por disputas e negociações.


CONCLUSÃO

Como podemos observar, ao longo de todo texto, o trabalho de Foucault mostrou-se inovador e original frente às pesquisas dos anos de 1970. Foucault trouxe novos objetos para a história: de total, a história passou a ser observada pelo lado do geral, sem a preocupação de oferecer explicações totais para a história. É certo que, por um lado, muitos historiadores não seguiram os olhares foucaultianos (outros sim), mas, por outro, não resistiram a trabalhar a partir dos objetos horizontados por Foucault, mesmo que fosse para criticá-lo, rejeitá-lo. Mal sabiam que estavam a fazer o que Foucault mais defendia: sair da normalidade, da igualdade, da uniformidade; colocando em dúvida tudo aquilo que está posto como o “mais correto”; preferindo o que é múltiplo, os agenciamentos móveis, às diferenças. Afinal, “quanto mais queremos conhecer a nós mesmos, tanto mais devemos renunciar a nós mesmos; e quanto mais queremos renunciar a nós mesmos, tanto mais devemos trazer à luz a verdade sobre nós mesmos (aforismo foucaultiano).


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